Em seis de março de 1926, lá pelas bandas do Juazeiro do Norte, a convite do padre Cícero para se integrar ao Batalhão Patriótico no combate a coluna Prestes, encontrava-se um mito que até hoje vagueia na mente de muitos brasileiros. Virgulino Ferreira da Silva, conhecido Lampião, em entrevista ao Dr. Octacílio Macêdo deixava claro que sua entrada ao mundo do cangaço foi à vontade de fazer justiça as próprias mãos, para ele, esperar pelo poder público era em vão, já que os assassinos que mataram seu Pai gozavam de grande proteção dos poderosos do sertão. A história do Rei do Cangaço tem como pano de fundo a dureza do sertão e suas relações de poder, que, sem dúvida, até hoje influencia a vida de todos os nordestinos.
No dia 28 de julho completou 73 anos que Lampião e seu bando foram cercados e mortos pela polícia em Sergipe. Movido essencialmente por vingança a fama desse nordestino vai do heroísmo ao banditismo sanguinário. Não é difícil de encontrar entre os idosos da região pequenas histórias e contos dos feitos do famoso cangaceiro. Lampião tornou-se o bandido mais famoso do Brasil, sua imagem um estereótipo de um sertanejo rústico e valente. Contudo, não podemos dissociar essa figura do seu tempo, Lampião era o reflexo da situação do nordeste. Entender sua história e sua realidade não significa glorificar ou justificar seus atos, mas analisar também a relações sociais passadas e presentes.
Entre as décadas de 20 e 30 (período em que o grupo de Lampião atuou) o Brasil vivia a chamada República oligárquica, na ocasião as elites agrárias dominavam o cenário político e todas as atenções se voltavam ao sudeste com a predominância da política do café-com-leite. O nordeste, frequentemente abatido por secas prolongadas, pouco auxílio e atenção recebia do poder público, fazendo surgir uma massa de fustigados que poucas perspectivas tinham do futuro, com isso o banditismo passou a ser um fenômeno espontâneo contra a situação social. Com alta concentração de terras nas mãos dos coronéis, escassa oportunidade de trabalho, associados à seca e o descaso do poder público o Nordeste era considerado uma “terra sem leis”.
E foi nesse caos de um sertão desestruturados que os grupos de cangaceiros não só lutavam contra os coronéis, mas também eram utilizados por eles de forma organizada para tentar restabelecer a “ordem social”, pois até o padre Cícero, citado no inicio, era rico e fazia parte da política conservadora do sertão do Cariri. Portanto, a ideia que se tem de cangaceiros liderado por um “Robin Hood do sertão” em prol apenas dos pobres não é completamente correta. Certo que Lampião, por ser religioso, fazia inúmeras doações aos necessitados, porém, na verdade seus ímpetos sempre foram pessoais e não políticos. É um bandido símbolo de um Nordeste pobre e sempre extorquido pelos mais fortes e poderosos.
Lampião foi um produto do seu meio. Em um sertão desesperado a imponência da força para conseguir ilicitamente o sustento era comum. Os próprios coronéis, que eram a força política predominante, usavam de jagunços armados e exploravam inescrupulosamente a população. Contudo, podemos nos perguntar o que mudou de lá pra cá? Se analisarmos, essencialmente pouca coisa mudou, o nordeste continua com uma estonteante desigualdade social. E as verbas, destinadas à resolução do problema durante a implantação da SUDENE, só serviram para criar uma espécie de “indústria da seca” que fortaleceu ainda mais os políticos hegemônicos.
Hoje, ainda temos por todo nordeste as mesmas classes dominantes no poder e é a preponderância desses grupos em inúmeras prefeituras e governos que dá continuidade ao cego ciclo de descaso, corrupção e favorecimento. A propriedade latifundiária do nordeste continua intacta, a miséria também. Não é mais necessário de jagunços e cangaceiros, o próprio Estado - que continua sob égide dos “coronéis”- com seu aparato se dá o trabalho de conter a massa populacional destituída de honra. A elite continua lucrando muito em cima da pobreza da população. Pra eles é necessário que continue a velha história dos pobres nordestinos, que sem lutar por mudança, continuam morrendo sem hospitais de qualidades, que sem poder trabalhar por não possuir acesso a qualificação, continuam sendo explorados, que sem consciência de sua realidade por não possuir ensino de qualidade, continuam votando nos seus próprios carrascos. Só assim a elite consegue manter sua hegemonia no poder político e econômico. Para os novos “coronéis” é mais seguro e lucrativo pro seu poder manter a situação de “coitadinhos” dos sertanejos.
(Uma versão adaptada foi publicada no Jornal Correio do Mês de Conceição do Coité)
(Uma versão adaptada foi publicada no Jornal Correio do Mês de Conceição do Coité)

Um comentário:
Oi querido,
Ainda bem que temos o nordeste e os nordestinos para manterem viva esta memória.
Adorei.
Compartilhei.
Beijo.
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